Um ano sabático e algumas entrelinhas

- Atualizado em 1 de junho de 2017 - , , ,

 

Dezesseis quilos de algumas roupas, uma passagem de uma volta que não ocorreria. Um roteiro capenga para os dois primeiros meses e a certeza de que dali por diante tudo seria incerto. Foi assim que iniciei o que hoje está na moda e é definido como “período sabático”, ou, também, gap year no inglês.

A primeira vez que esbarrei no termo foi em 2012. Abster-se da rotina vivenciada, apertar o “pause”, realizar coisas completamente novas antes de reestruturar uma nova rotina. Tudo isso em um cenário completamente novo, talvez em um país do outro lado do mundo. Foi basicamente assim que compreendi o tal “jogar tudo para o alto”.

Lembro também ter buscado na ocasião encontrar em alguma dessas histórias algum protagonista médico. A pesquisa da combinação de palavras teve resultado negativo e, em um primeiro momento, decidi que essa alternativa jamais poderia ser aplicada em minha vida. Afinal, protocolo não inventado não tem como ser recriado de modo seguro e com eficácia comprovada.

Naquela época também minha vida ansiava por posições firmes diante de um câncer de um familiar, mudança de cidade e o término de um relacionamento amoroso intenso.

Os tempos eram, é claro, de outras decisões, outro clima e definitivamente outras prioridades. Desse modo, os primeiros traços da viagem que se desenhava eram guardados com chave, senha e cadeado no último compartimento de uma gaveta mental.

Mas nos momentos de buscar fôlego no meio de tal remada, a ideia ressurgia em relâmpagos velozes que clareavam um horizonte ainda indecifrável.

A possibilidade de em um momento futuro poder viver uma nova experiência de vida dessa natureza atuou como uma fagulha de esperança de futura felicidade. Minha possível viagem era um príncipe encantado que chegaria para me salvar de uma solidão e desamparo desesperador que o meu momento conturbado de vida.

Meu futuro ano sabático atuou como minha religião, minha crença de vida e no sentido de qualquer coisa quando tudo não fazia sentido e precisava ser nesses termos revisto.

Arco-íris depois da chuva. Terra prometida depois de tempestade em alto mar. O período sabático que se construía era meu plano B para cobrir meu vazio de mim mesma depois da morte que ocorria todos os dias em minha família e depois da derradeira ausência que inevitavelmente ocorreria quando minha mãe viesse a falecer.

Junho de 2017. Há um ano parti.

A primeira parte do que poderia escrever sobre isso você já leu em outro blog.

Então vamos ao que interessa.

Coisa boa se a tal felicidade tivesse endereço certo no estrangeiro e falasse francês. Ou alemão. Ou hindi. Bastaria comprar um tíquete aéreo de alto valor, realmente largar todos os dissabores, os compromissos, as relações difíceis e colocar os pés no suposto paraíso para que em um passo de mágica toda água insossa virasse um bom vinho.

É claro que novos cenários, novos desafios e contatos interpessoais fora de nossas usuais bolhas funcionam como inegável inspiração e combustível nobre para uma vida de novas resoluções.

Também não se pode menosprezar o impacto que o temor, o maravilhamento e a sensação de vastidão – “awe” no inglês – proporcionados por experiências como visitas a novos lugares, por exemplo, podem causar em nossos cérebros.

Entretanto, a principal paisagem, que é a mental, vai de arrasto para a praia ou às montanhas mais altas e há sempre espaço para nossos dias de treva, sejam eles no Tahiti ou em Bariloche.

Portanto, ao preparar a mala para uma aventura sabática, é preciso estar ciente de que junto a quaisquer 20 quilos de roupas levamos outra tonelada de parafernália mental que não é barrada pelos detectores de metais dos aeroportos.

Conversas que não se realizaram, traumas não superados. Desgostos e medos não viram pó com o assinar de um pedido de demissão.

Nesse sentido, boa parte da justificativa para não encararmos um período sabático como uma mudança capaz de nos brindar com um definitivo mar de bem-estar é o fato de que toda e qualquer mudança acertada pode ser acompanhada de um boost no nível basal e individual que temos de felicidade. E, depois te todo pico desse tipo, voltamos aos níveis basais e individuais de cada um.

Na mesma linha da concretização de um casamento, o sonho de um novo e valoroso emprego, um filho. Nosso estilo de vida pode ser alterado permanentemente através de nossas decisões. Mas a gangorra da vida entra em ação para tudo aquilo que se conquista. As mudanças, portanto, não devem ser, portanto, supervalorizadas.Estar ciente disso deixa qualquer sonho mais leve e realista.

Durante esse ano que passou não tive também a famosa “revelação”.

Concluí que talvez a maior resposta que se pode encontrar vagando de uma terra à próxima  poderá ser encontrada quando se estiver pronto para novamente arcar com as dores e amores de uma vida com rotina, a qual de fato, após certa experiência, será mais adequada às realidades atuais e pessoais do indivíduo.

E como parte de uma vida sólida e assentada, nada mais desafiador do que as relações interpessoais que sobrevivem ao tempo e que se mantém ao longo de conflitos saudáveis e frustrações inerentes do convívio social.

Aquilo que chamamos de “vínculo” resume nossas habilidades de empatia, perdão e em maior âmbito de amor. Quando se pipoca de um país até o outro, os convívios são intensos e breves, sem haver tempo para as rupturas episódicas com necessidade de solução que ocorrem nas nossas conexões usuais quando pertencemos a um lugar.

Viver uma pausa, aprender, repensar e abraçar uma nova rotina com excesso de bagagem de informação e segurança sobre seus novos valores é maravilhoso.

Mas, a verdadeira coragem está em ficar. Ficar para sofrer. Ficar para ver o inverno chegar.  Ficar para ver o lado podre do seus novos amigos. Ficar para pensar o que fazer quando um dia tudo estiver chato de novo. Ficar para se frustrar e reconstruir constantemente a vida que se conquistou depois de tanto aprendizado.

Por último, é preciso que sejamos justos com a importância de nossa rede de apoio quando realizamos qualquer sonho.

Por detrás de todo corajoso há sempre aquelas coisas boas que também ficaram para trás, aquela dose de egoísmo saudável que poderá lhe ser criticada e a certeza de que enquanto você está se redescobrindo, alguém abriu mão de algumas horas de seu tempo para lhe dar aquela força ajudando a organizar alguma coisa que você inevitavelmente deixou para trás. Sempre fica algo para trás. É assim com quem morre. É assim com quem parte de nossas vidas das mais diversas maneiras.

Ausentar-se de sua prévia rotina é abrir mão do convívio do seu avô, a quem você semanalmente visitava e que agora ficará mais desamparado. É deixar o cachorro que conviveu com você por mais de 10 anos para que seu irmão cuide. É deixar sua mãe como procuradora para resolver pepino no banco quando ocorre aquela “m” e que alguém tem de se fazer presente.

Por isso, hoje meu texto é ilustrado com um vídeo.  O vídeo possui imagens de alguém que a mim importa. São imagens feitas lá na minha terra natal, a querida Passo Fundo – RS.

É a imagem de alguém que ficou “Em outro lugar” mas que “veio comigo”, em todas as estradas que percorri quando escolhi viajar.

No me caso meu irmão. No seu caso, qualquer outra pessoa de valor em sua vida que fica enquanto você parte.

Se “tem que ter coragem para partir e deixar tudo para trás”, “com você do meu lado eu sei que posso e vou muito mais!”

Obrigada a meu irmão, João, e a todos que ficam amando “Em outro lugar”.

E quanto ao futuro?

Bem… Ele bem que poderá ser também em outro lugar.