Trabalho em troca de hospedagem no coração da Sicília

- Atualizado em 13 de Fevereiro de 2017 - , , , , ,

Vucciria é um antigo bairro de uma das principais cidades da Sicília, Palermo. Vivo, pitoresco, colorido e barulhento, por lá se encontra o autêntico cenário de ruas estreitas perfumadas a peixe, que mais parecem becos escuros findáveis onde ressalta o colorido de frutas, legumes e peças de roupas dos varais que pingam sobre os transeuntes. Os palermitanos torcem um pouco o nariz para este bairro, mas ele é definitivamente a oportunidade de encontrar algo bem siciliano.


Cidade de Palermo, Sicília, Itália


“Buongiorno! Due parigini, per favore!” – por um mês, essa era a nossa primeira tarefa da manhã. O cheiro do pão fresco trazia de brinde o pontual sorriso aberto do nosso amigo padeiro, vizinho do Vucciria hostel. Com dois euros, voltávamos com dois pães generosos embrulhados em um saco de papel, prontos para serem cortados e servidos no café da manhã.



Depois, tirávamos do forno os croissants preparados na noite anterior e os transportávamos diretamente para a mesa do café.  Figos, nectarinas e pêssegos suculentos que eram buscados com frequência dos famosos mercados de rua da cidade de Palermo arrematavam a preparação.




Pouco a pouco os hóspedes se levantavam. Geralmente ninguém acordava muito cedo, já que todas as noites nossa rua em meio ao coração da Vucciria fervilhava com música e festa que só acabavam às quatro da manhã. Para alegria de uns, felicidades dos negócios de outros e tristeza dos ouvidos sensíveis e cansados de tantos outros.

Assim que os quartos ficavam vazios, começávamos a deixar tudo organizado. Varríamos, passávamos pano, trocávamos lençóis dos que se iam. Banheiros, áreas comuns, tapetes, terraço, louça, tudo era tarefa de nós três. Também alimentávamos os gatos de dona Marguerita, que caridosamente acolhia inclusive os gatos dos vizinhos, quando por ali passavam com fome.



Lavávamos as roupas de cama e estendíamos tudo nos varais que davam ao pátio ou à rua, a qual todos os dias se coloria dos panos pertencentes a todos daquele bairro. O trabalho não era verdadeiramente pesado, mas confesso que nos primeiros dias sempre tinha câimbras ao ir me deitar. Isso porque, é óbvio que fazer aquele faxinão na sua casa é bem diferente de fazer várias horas de faxina em uma estrutura destinada a abrigar várias pessoas. Também acho que antes eu andava um pouco fracote.

Fazíamos os procedimentos de check-in e check-out dos hóspedes, cuidando da organização dos horários e pagamento das tarifas dos que chegariam e partiriam naquele dia.



A outra voluntária do Chile e e eu em uma brincadeirinha com um dos famosos grafites do bairro Vucciria.


Diariamente alguém chegava e outros partiam. Pessoas de várias idades, de diferentes países, com diferentes excentricidades e atitudes. Alguns chegava mudos e saíam calados. Outros se aproximavam desde o início procurando criar proximidade. Tudo ocorria de modo intenso pois o tempo deles na cidade, e também o nosso, era curto.



Nas horas vagas, também rolou de hóspede ajudar a cortar cabelo da equipe do hostel. Aqui ambos cortávamos o cabelo de alguém pela primeira vez. No final tudo deu certo!


Em um meio-dia trivial, um novo hóspede chega munido de uma garrafa de tequila e chocolates compostos por partes de grilo seco. O simpático mexicano parece não se satisfazer enquanto não vê alguns dispostos a provarem de seus presentes.

No próximo dia, uma moça turca decide que vai nos presentear com um típico café da manhã ao estilo de seu país.  Em outro dia, uma moça chinesa que prepara suas malas para ir embora me olha e me oferece um de seus vestidos. Sua mala está pesada e ela volta para uma região fria. Visto seu presente de prontidão, por que não?! Sorrindo pede para tirar uma foto comigo. “Minha amiga brasileira, meu vestido ficou melhor em você do que em mim. Obrigada”, diz ela.


 


Meu primeiro café da manhã turco.


Conversas com lágrimas: ele esteve na guerra do Afeganistão e até hoje não consegue dormir. Conversas com abraços: ela assumiu ser gay e foi ignorada por seu pai durante um ano. Conversas de esperança: seu pai sofreu um acidente grave e as horas que antecedem o voo parecem-lhe intermináveis. Conversas com coração acelerado: ele é grego, toca violino, é simplesmente encantador e foi meu motivo de chegar até a Áustria.

Entre o fazer de uma cama e outra, papos curtos ou longos construíram a memória do que realmente foi essa experiência. Enquanto ainda ontem eu pensava como seria estar do outro lado do balcão de um hostel e vivenciar o vai e vem de quem chega e sai, hoje eu sei.



Festa de aniversário improvisada para um de nossos hóspedes.

Qual o prato? Algo da culinária francesa, feito pelo próprio aniversariante, Jean.


O Workaway me foi conveniente por diversos aspectos. O primeiro deles, é que foi completamente compatível com a minha proposta de viagem: um ano sabático para conhecer novas culturas, línguas, pessoas e para adquirir novas experiências. Isso por que trabalhar é bem diferente de passar em um local como hóspede. Você atua por detrás das cenas, e mesmo que venha a passear um pouco menos do que alguém que esteja ali somente para fazer turismo, você verdadeiramente consegue vivenciar um pouco mais da cultura do local.



Dia de folga: praia de São Vito lo Capo, pertinho de Palermo.


O segundo aspecto de aproveitamento foi o financeiro. Por um mês não gastei nada de acomodação e muito pouco com alimentação. É claro que isso tudo foi pago com o trabalho que exerci junto a dois outros voluntários. Acontece que se você colocar no papel realmente quantas horas teria de trabalhar naquele local para pagar como turista por aquela hospedagem e aquela comida, vais perceber que o trabalho voluntário sai sim, bem mais em conta.  Sem falar que não é água com açúcar chegar no exterior sem falar proficientemente a língua local (meu caso) e conseguir um emprego relâmpago para apenas permanecer um mês.

Mas você largou seu consultório onde atuava como médica dermatologista, sua posição como professora de universidade para ir para o exterior fazer isto?

Bem, a história sobre meu período sabático é longa e aos poucos vou contando um pouco mais sobre isso aqui no blog. Até mesmo porque a cada vez que alguém me conhece na estrada, eu enfrento muita curiosidade sobre os motivos que me guiam. Mas, sim: foi para vivenciar justamente experiências como essa que eu temporariamente me desvinculei de minha prévia rotina bem-sucedida.

Inclusive, eu recomendo um pequeno exercício para quem está lendo este post. Experimente tirar da frente de seu nome o Sr. fulano de tal, doutor, chefe, professor, coordenador, líder. Imagine por alguns minutos que hoje você não tem mais a profissão que conquistou. Que ninguém mais lhe conhece pelos méritos que você tem em sua carreira ou que por algum motivo drástico você não pode mais atuar na exata função que vem atuando nos últimos tempos. Imaginou? Então, agora sinta: o que sobra de quem você realmente é em essência? Pelo que você ainda pode ser admirado? Quantas outras coisas boas você fez e ainda pode fazer pelas pessoas? Que marca você ainda poderia deixar no mundo se seu contexto profissional fosse outro ou se não tivesse tido as mesmas oportunidades que teve?

Talvez, depois deste exercício, você consegue entender um pouco sobre o benefício número três desta experiência, que, no meu caso se chama “redescoberta pessoal”. Nada de “será que eu gosto de calor ou frio, rapazes ou garotas, turbulência ou calmaria?”. No meu caso, a redescoberta pela qual eu ansiava quando traçava a viagem era uma coisa bem, bem complexa – questionamentos resultantes da porrada de um câncer que levou consigo alguém que eu muito amo.

Por fim, os ensinamentos que nos tornam melhores não têm endereço ou cenários proibidos para acontecerem. E, se você for fazer um Workaway que pareça completamente desvinculado da profissão que você tem hoje, eu ponho minha mão no fogo que, mesmo sem nenhum novo certificado para pôr na parede, depois da experiência, você vai voltar para sua nova rotina de maneira bem mais rica e compatível com suas verdades atuais.

E só para constar: “Viver não cabe no Lattes” (desconheço o pronunciante).


Como funciona o Workaway?

O Workaway é uma plataforma que conecta pessoas/empresas que procuram algum tipo de ajuda a voluntários, dispostos a trabalhar algumas horas em troca de hospedagem. A empresa já existe há vários anos e rende anualmente inúmeras experiências confiáveis aos seus usuários.

Ao custo de 29 euros é possível usar o sistema por dois anos. As buscas podem ser feitas por região, tipo de atividade e período procurado.

Os tipos de experiência variam. Há pessoas que buscam auxílio para a renovação de uma residência, instituições que recrutam voluntários a ensinarem suas línguas, trabalhos com animais, cuidado de crianças e idosos, hostels e inúmeras outras possibilidades.

Geralmente as tarefas acontecem por quatro horas ao dia, de cinco a seis vezes na semana. A acomodação pode ser em quartos compartilhados, em barracas, trailers ou em um super top quarto individual. Muitos hosts oferecem também a alimentação, que pode ser completa (menos comum), ou, apenas um café da manhã.

Assim como é com toda coisa deste tipo, pode-se encontrar um host bem camarada e outros nem tanto assim. Para isso, o programa conta com um sistema de avaliações, onde hosts e voluntários se avaliam mutuamente. É só ficar esperto e escolher aqueles anfitriões que possuem as melhores avaliações e torcer que eles tenham disponibilidade para lhe receber no período desejado.


 

 

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