Trabalhando como modelo na China (cidade de Guangzhou)

- Atualizado em 12 de maio de 2015 - , ,

princAutor: Motive Travel

Na sessão Morando Fora desta semana, o Escolho Viajar entrevistou a Bárbara Boller, gaúcha que escolheu morar um tempo em Guangzhou na China trabalhando como modelo.

A Bárbara é formada em Relações Internacionais com ênfase em Marketing, possui uma empresa própria de consultoria de Marketing e trabalha como modelo para a Ford Models Sul (RS) e Oca Models (SP). Ela já representou a cidade de Passo Fundo no Miss Universo Rio Grande do Sul e protagonizou campanhas nacionais como das Lojas Leader, Renner, C&A e Dakota. Com 18 anos incompletos partiu para a terceira cidade mais populosa da China, Guangzhou. Nesse post ela nos conta como foi essa experiência.

Barbara-Boller-Nova-08

Escolho Viajar – Bárbara, como foi o início dessa história de passar um tempo na China?

Bárbara – Desde os 15 anos eu havia resolvido que queria fazer Medicina. Já tinha começado a estudar nos cursinhos pré-vestibulares e fazer diversos testes para tentar garantir minha vaga. Porém, quando fiz 17 anos e estava no último ano do Ensino Médio, uma agência de modelos de Porto Alegre me convidou para conhecê-los e, eu, que já fazia alguns pequenos trabalhos desde os 14 anos, me animei com o assunto: a possibilidade de uma viagem internacional.

Em meados de novembro de 2009, minha mãe e eu estávamos lá, ouvindo os bookers (pessoal que trabalha nas agências de modelo) falarem das mais diversas possibilidades de países em que eu poderia morar e trabalhar como modelo. Porém, era necessário que eu passasse um tempo, primeiramente, na Ásia, já que é considerada a “escola” das modelos, devido ao grande número das possibilidades de trabalhos.

Fiquei muito feliz quando surgiu a oportunidade de ir morar na China, mas me perguntava se não estaria perdendo tempo, já que queria fazer Medicina e ter uma formação universitária, independentemente da carreira de modelo. Por outro lado, sabia da complexidade de ser aprovada em um vestibular tão concorrido quanto esse. Por fim, decidi que alguns meses fora do país não atrapalhariam por completo a minha vida e, então, parti.

Escolho Viajar- A sua oportunidade se deu, então, através de uma agência de modelos?

Bárbara – Sim, uma agência de Porto Alegre. As agências possuem setores internacionais que estão em constante contato com o mercado internacional e atendendo às suas necessidades. Naquele momento, uma agência chinesa estava precisando de meninas com estilo europeu, e foi aí que me escolheram.

Escolho Viajar – Onde você foi parar na China e como foi sua chegada?

Bárbara – Em Fevereiro de 2010 com 18 anos incompletos, estava no avião rumo à cidade de Guangzhou na China, também conhecida como Cantão para viver por três meses. Por lá, ocorre a maior feira de importação e exportação do mundo.

Estava muito feliz e ansiosa. Já na China, em Hong Kong, um senhor enviado pela agência me esperava para fazermos meu visto. Admito que não sei exatamente como funciona esta questão para os brasileiros, uma vez que a agência se encarregou de tudo.

Até aí estava tudo bem, já que Hong Kong era uma colônia inglesa e mais parece uma cidade ocidental. Depois disso, peguei um trem e parti para Guangzhou.
Ao chegar na minha cidade, vi o que era a China de verdade. Milhares de pessoas circulavam na estação de trem tumultuada. Logo, logo apareceram a Helen (uma das bookers) e o Shifu, nosso motorista (a palavra Shifu significa “mestre”, e é o modo como devemos nos dirigir a homens mais velhos por lá). Lembro que enquanto eles carregavam minhas malas fui ao banheiro e me deparei com a primeira “esquisitice” chinesa: não existem privadas em lugares públicos. O que existe é uma espécie de privada no chão, o que chamam de privada turca por aqui.

Ao chegar em minha nova residência em um prédio de 35 andares com peças amplas de 120m² (para quem pensava que ia morar em um cubículo…) entrei em choque: era inverno e água escorria das paredes devido à umidade, ninguém falava minha língua e só o que eu conseguia pensar era: “O que é que eu estou fazendo aqui?”. Mas, já no dia seguinte, um sol lindo e um clima agradável me encorajaram a sair de casa e começar minha adaptação. O desespero passou e comecei a entender a experiência única que me estava sendo proporcionada.

Escolho Viajar- Como era sua rotina por lá?

Bárbara: A minha rotina era diferente a cada dia, alguns dias eu tinha testes até às 8 da noite, em outros fazia meus trabalhos. Os trabalhos por lá são muito mais cansativos do que aqui. No Brasil, uma sessão de fotos para um catálogo de roupa íntima, por exemplo, dura em torno de 8 horas e o valor é fixo, a não ser que ultrapasse o tempo combinado, aí você recebe um percentual a mais.

Já na China, o trabalho é pago por hora e dura entre 10 e 12 horas, em média (cheguei a trabalhar até 15 horas em alguns casos). Pelo fato de o pagamento ser feito por hora, eles querem fazer tudo muito rápido. Então, muitas vezes você nem consegue trocar de roupa porque já tem três chinesinhas trocando para você (para garantir que a modelo não vai ficar enrolando e perdendo tempo). A diferença no número de horas se deve, principalmente, ao fato de que lá todas as marcas são exportadoras, então o número de coleções e de peças é muito maior do que no Brasil.

Escolho Viajar- Como sua experiência de morar na China foi custeada?

Bárbara – O pagamento foi o meu trabalho. Funciona desta maneira: a agência do país que te recebe paga todas tuas despesas: passagem, apartamento, transporte, academia e, ainda, um dinheiro semanal chamado Pocket Money (700RMB, equivalentes, na época, a 180 reais). Conforme você vai trabalhando eles vão descontando os valores que você gasta. Mas a parte boa é que, se por acaso, você não conseguir trabalhar o suficiente ou não trabalhar nada, eles assumem a dívida, já que acreditam que o teu sucesso depende do esforço deles em te vender para o cliente.

Escolho Viajar- Quais foram as suas principais dificuldades em Guangzhou?

Bárbara – Minha maior dificuldade foi a comunicação. Acho que isso que me garantiu os episódios mais engraçados também. No final, tudo deu tudo certo e eu ainda aprendi bastante coisas de Mandarim.

Escolho Viajar- Você chegou a conhecer alguma outra cidade da China? Qual sua impressão sobre elas?

Bárbara – No geral, as cidades grandes da China são todas muito tecnológicas. O transito é, de fato, muito movimentado e existem muitas pessoas na rua (pense na 25 de março, em São Paulo!). Mas, a maior parte das cidades não são assim, a não ser pelas áreas nobres.

O que mais me chamou a atenção em Guangzhou é que nas grandes avenidas toda a travessia de pedestres é subterrânea, juntamente a estação de metrô, onde também se encontram diversas lojas e restaurantes (além de muitos “7 eleven”, adoro!).

Eu trabalhei em algumas cidades no interior e achei elas muito simpáticas, mas infelizmente não vou saber dizer quais foram já que estava focada no trabalho.
Conheci Hong Kong e sempre digo para as pessoas que passaram apenas por lá: HK não é China! As pessoas lá falam Inglês, as sinalizações são em Inglês e, a cidade é tão isolada que, para vocês terem uma ideia, as pessoas que moram em outras cidades da China precisam de visto para entrar lá! Claro que vale a pena conhecer, mas não deixe de visitar outras cidades se tiver oportunidade!

Por fim, no final da minha viagem, fui para Beijing (Pequim) e visitei o templo da dinastia Ming e a muralha da China – simplesmente indescritível! Se você for para a China e não visitar a muralha, você não foi a China! Beijing significa “Capital do Norte” e é uma cidade bastante fria no inverno, lembre-se disso! Além destas, recomendo que visitem Shanghai, infelizmente eu não tive tempo para visitar, mas as recomendações são das melhores.

Escolho Viajar- Como foi sua relação com a comida por lá?

Bárbara – Ao contrário do que todos pensam, não é fácil de encontrar escorpiões, baratas e aranhas para comer na rua. Eu só vi uma vez, mas estava em horário de trabalho e me arrependo até hoje de não ter comido um escorpiãozinho.
Mesmo assim, a comida foi uma coisa meio caótica no início. Tudo por lá é muito temperado e muito gorduroso, mas com o tempo você se acostuma. Porém, lembre-se de nunca pedir o prato apimentado, pois o “normal” já tem pimenta DE MAIS!
Aqui vão algumas dicas sobre a comida na China:

– Se você procura um prato mais tradicional ainda, peça um Fried Rice. Este é um arroz que, após cozido, é colocado em uma chapa e frito junto com outros ingredientes como ovos e ervilhas.

– Recomendo, ainda, que você visite um restaurante tipicamente chinês, para sentar naquelas mesas redondas e compartilhar a comida. Também não deixe de comer o pato laqueado, principalmente se estiver em Beijing. O sabor é incrível!

– Cuidado com pratos ensopados de galinha: normalmente a galinha vai vir inteira dentro de uma panela com um caldo meio estranho (Eca!).

– Se você está satisfeito, não limpe o prato! Se você limpar o prato quer dizer que faltou comida e você quer mais. Assim, o anfitrião continuará te servindo até você não aguentar mais!

– Falar Mandarim, ou ter por perto alguém que fale pode ajudar você a não acabar tomando sangue de cobra.

Escolho Viajar- Você se sentiu segura de transitar por lá?

Bárbara: Muito! A China é extremamente segura… Lembro-me de sair na rua muitas vezes de madrugada para comprar algo nas lojas 24 horas e sempre ver policiamento na rua. Claro que você não deve se meter em becos e lugares que você não conhece bem nesses horários, mas, isso vale para qualquer cidade no mundo.

Escolho Viajar- Você utilizava mais qual meio de transporte por lá?

Bárbara – Para os trabalhos nós utilizávamos muito a van do Shifu. Porém para passear, dependendo do número de pessoas pegávamos um táxi (extremamente barato). O cuidado com o táxi é saber onde você está indo. Uma dica preciosa sobre os táxis é: não tente falar o endereço, qualquer diferença de entonação na palavra pode significar algo completamente diferente (aconteceu comigo).

De qualquer maneira, o meio mais seguro e fácil de se locomover por lá é de metro. Desde que você não queira pegar a linha 4, que leva os trabalhadores para a região metropolitana e é EXTREMAMENTE lotada a ponto de me fazer desmaiar em um vagão uma vez (sim, que fiasco!). As linhas principais são a azul e a amarela, e levam para os principais pontos turísticos, shoppings e centros de compras.

Escolho Viajar- Se pudesse recomendar 5 lugares e programas legais para serem feitos em Guanghzou, quais você recomendaria?

Bárbara – As minhas recomendações de lugares são:

1- Canton Tower – Essa é uma das marcas da cidade. A torre tem cerca de 600 metros de altura e é a segunda torre mais alta do mundo. A arquitetura da torre é lindíssima, e é mais bela ainda à noite, quando ela fica trocando de cor e desenhos. Além de chegar ao topo da torre e ter uma vista única de toda a cidade, você pode andar em um teleférico no topo, que dá a volta ao redor da torre.

2- Complexo Chimelong – O Chimelong é composto pelo Safari Park, Chimelong Paradise e Water Park. O Safari Park É um zoológico enorme, o maior que já visitei. Você precisa ver ursos Panda se vai para a China, certo? Lá tem diversos deles… Além de Cangurus albinos, tigres brancos, tigres bebês que você pode pegar no colo e tirar foto… Já o Paradise é um parque de diversões enorme, onde se encontra a maior montanha russa da China e o Water Park, claro, é um parque aquático.

3- Parque Yuexiu – Este parque, além de bem arborizado é um lugar bom para passear nos fins de semana (e respirar um ar puro), possui o monumento das “5 Cabras”, um dos símbolos da cidade. Dali, você já pode aproveitar para visitar o “Dr. Sun Yat-Sen Memorial Hall” e ver um pouco da arquitetura tradicional chinesa em meio às grandes construções.

800px-Sun_Yat-Sen_memorial_hall Autor: Daniel Berthold, Outubro 2005.

4- Beijing Lu – “Lu” significa “Rua”, então esta é a Rua Beijing. Se você quer fazer compras este é o melhor destino. Nesta rua encontram-se diversas marcas internacionais e shoppings, com preços muito bons. Você também poderá encontrar algumas marcas locais de boa qualidade e preços melhores ainda, além de alguns restaurantes e cafés para uma pausa nas compras. Claro que em meio às lojas originais você encontrará algumas lojinhas de peças falsificadas. Nessa, caso você queira comprar, prepare-se para barganhar, barganhar e barganhar MUITO! Para você ter uma ideia, comprei uma bolsa que eles me ofereceram por 600RMB por 120RMB! E não se importe em dar as costas e sair da loja, eles vêm correndo atrás de você na rua (é sério!).

5- Pearl River – Este rio é outra marca da cidade. Ao redor dele encontram-se diversos restaurantes e baladas de alta qualidade. Vale a pena conhecer e se você se encorajar, fazer o passeio de barco pelo rio, é lindo!

Pearl_River Autor: China Tour Advisors, Março de 2014.

Além destes lugares incríveis, não deixe de ir a uma “Watsons”. Uma espécie de farmácia que vende tudo que você pode imaginar! Desde produtos de beleza de marcas boas e muito baratos até bizarrices como adesivos e lentes para aumentar os olhos.

Escolho Viajar – Quais foram as principais lições que você adquiriu com sua experiência como modelo em Guanghzou?

Nessa experiência, conheci diversas pessoas, empresas e estudantes brasileiros e de diversos outros países e comecei a entender que meu interesse nas diferentes culturas do mundo poderia se tornar a minha profissão. Foi então que minha vida mudou completamente: larguei a ideia da Medicina e resolvi cursar a faculdade de Relações Internacionais com Ênfase em Marketing e Negócios. Por isso sempre digo: a China mudou a minha vida, para MUITO melhor! Na minha volta, em 26 de maio de 2010, tive a certeza de que havia me tornado uma pessoa melhor, mais madura e com muitas histórias para contar.

Escolho Viajar- Se pudesse dar algum conselho a pessoas que querem ter uma experiência semelhante à sua, qual seria?

Bárbara – Eu diria para mergulhar na cultura do país. Tentar viver, ao máximo, próximo de pessoas que vivam a cultura do país em que você for visitar. Por mais difícil que seja, as tentativas de comunicação aproximam as pessoas e nos fazem aprender muito.