Sétimo sentido: um reencontro com a saudade na Itália

- Atualizado em 14 de julho de 2016 - , , , ,

lavanda-europa-postFoto tirada em um campo de lavandas na Itália (post aqui)


Reencontrei ela. Mas a verdade é que nunca havíamos sido devidamente apresentadas.

Tenho me deparado com vós Santinas, como a minha, nos bancos das praças onde admiro a paisagem.

Escuto no supermercados vôs Therezeios que puxam papo reclamando de alguma coisa, movimentando ansiosamente as mãos que maestram a entonação das palavras.

Vejo Carmes serenas que me explicam – em um Italiano forçadamente lento – onde ficam as coisas que quero ver.

Estar na Itália hoje e ser apresentada à terra de minhas origens é como  encontrar um parente que você desconhecia.

Você olha seu nariz e reconhece que é igual ao seu.

A boca que te conta histórias que não lhe são familiares é igualzinha à sua. Você não sabe do que ele está falando mas fica surpreso de observar que a maneira como a movimenta rima ela com expressões faciais muito parecidas com às suas. Seu parente desconhecido leva à mão ao cabelo do mesmo jeito que você faz. Ele põem as mãos sobre a perna cruzada de uma mesma maneira com que costuma fazer.

É um familiaridade consentida entre estranhos.

É claro que o que mais vale nas nossas relações não é o sangue, e sim, os laços de afeto, atitudes e envolvimento que existem entre nós seres humanos. Mas não há  como negar: o tal “sangue”, mesmo sendo invisível, traz consigo o o nosso sétimo sentido: o genético

Ele predetermina boa parte do que somos, querendo ou não. Predetermina boa parte de como vamos viver, adoecer e morrer. Além dele, o deuses de cada um, o destino, a alimentação, as questões ainda não explicadas por Freud, os fatores ambientais, a essência e as crenças de cada um vão ditar o resto todo.

Hoje estou aqui a fazer um resgate de uma relação que ocorreu simultaneamente em dois territórios distintos.

Pode ser que esteja, na verdade, fazendo um esforço danado para buscar manter minha família maior do que ela verdadeiramente seja, e que tenha hoje me pego pensando nessas semelhanças para colorir um certo vazio no peito, de um aniversário de saudade.*

Ainda não sei por que tive tanta certeza de que deveria estar fazendo justamente o que estou fazendo hoje aqui na Itália. Afinal, eu ainda posso estar errada de ter deixado minha vida no Brasil para trás – bem errada, inclusive!

O que sei é que somos duas desconhecidas que hoje se abraçam com afinidade, reencontrando as histórias que nunca aconteceram em um mesmo cenário, e que – quem sabe agora – estejam por acontecer.


*14 de julho de 2016 – um ano de saudade de Carme Regina, filha de Santina e Therezio, descendentes de italianos que deram origem à minha família no sul do Brasil.

 

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