Quem varia a si mesmo preserva a alma que tem

- Atualizado em 3 de junho de 2016 -

mao-segurando-o-por-do-solEsses dias estacionei em uma crônica* da Martinha. Vai sensibilidade para cá, uma lógica acolá, e o texto fecha com um memorável: “Ele varia a si mesmo justamente para não precisar se procurar em mais ninguém”.

Fiquei encantada com esse resumo de um mundo em uma só frase. Anotei-a em meu caderninho de capa preto e banco e no cinza da caixola, bem no canto onde coleciono as frases que uso como meus mantras de invocação de coisas que me têm valor.

Lembrei de certas mãos. Lembrei de Maria.

Ela pegava pesado na limpeza, organizando a vida de outras pessoas. Tinha indelicadas mãos de dedos grossos, que seguidamente descascavam por não aguentar o tranco dos produtos que desinfetavam, branqueavam, desencardiam e perfumavam.

Maria tinha um meio século de anos vividos, mas era como se já tivesse vivido 100. Não porque a feição refletia velhice, mas pelo tanto que já tinha feito. E esse tanto de feituras era a si mesma, mas em dobro aos outros.

Se chegava na casa do vivente para naquele dia limpar janelas, trazia consigo uma flor. Era de se perguntar se ela também cuidava de um jardim nos arredores de sua casa ou se, ousada como era, furtava a la Robin Wood, no caminho “pedregulhoso” por onde passava ou do cemitério próximo a sua casa.

Por educação, não se questionava a procedência dos arrojamentos de Maria, e com admiração e surpresa, agradecia-se à verdadeira flor.

Mas Maria não era só pétalas macias e tinha consigo muitos espinhos. Ela já havia surrado um marido, fugido de casa aos 16 anos e defendido, com faca de passar manteiga no pão em punho, uma patroa cujo esposo tinha por hábito tratar a esta com maldade.

Maria madrugava às cinco horas. Até às sete, já tinha arrumado toda sua casa, deixado algo para os filhos marmanjos que moravam consigo comerem ao meio-dia. Preparava o café, arrumava netos, mochilas e dentes dos pequenos. Partia deixando cada qual em dois colégios diferentes. Caminhava uns três quilômetros para chegar na casa de alguma patroa economizando o dinheiro do ônibus.

E pensar que essa correria matutina não “desinspirava” Maria a abrir a porta alheia carregando uma flor! Como uma agradável visita, só que quem passaria o café e lavaria a louça seria ela própria.

Em uma mesma frase, juntava a palavrinha “céus” com algum palavrão. Se não sabia cozinhar o prato que o patrão pedia, buscava aprender como quem desvenda uma teoria complexa da Física Quântica. Se as pernas estavam cansadas de segurar o corpo pesado, nos lábios nunca lhe faltava um vermelho vivo intocado e bem pintado. Não sabia falar inglês, mas isso não lhe impediu de colocar o nome de um filho de João Lenon. Maria nunca tinha viajado para além do horizonte do planalto médio gaúcho, mas sabia bem quem era, e respeitava a cultura e a vida diferente que levava cada uma das famílias com que convivia.

Pensando cá em meu mantra do dia, concluo porque lembrei de Maria. Ela podia ser diferente. Ela podia chegar com cara e punhos cerrados, ao invés de flores nas mãos. Podia esquecer-se da vaidade, já que tem o corpo cansado. Podia fechar questão com “eu não sei”, ao invés de dar a si mais trabalho com “me ensina? ”. Só que esta é Maria. Ela varia a si mesma justamente para não precisar se perder da alma doce e rica que tem.


A crônica mencionada no início do texto chama-se “Adúlteros”, e foi escrita por Martha Medeiros. Disponível em http://revistadonna.clicrbs.com.br


 

 

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