Memórias de guerra: a antiga sniper tower de Mostar (Bósnia) vista por dentro

- Atualizado em 7 de março de 2017 - , , , , , ,

Hoje não vou falar de um ponto turístico. Quero falar novamente sobre a cidade de Mostar na Bósnia, mais especificamente sobre um edifício abandonado, que durante a guerra de 90 na região dos balcãs serviu como mirante para que pessoas matassem outras pessoas.

Confesso ter chegado à Bósnia sem muito preparo. Não havia traçado roteiro, planos de quantos dias ficar, quais cidades visitar. Tão pouco me lembrava muito bem das minhas prévias aulas de História ou Geografia, onde em algum momento, santos professores tentaram desenrolar a maçaroca de desentendimentos que fazem parte da história da região. Neste país cheguei crua e parti calada, saindo ainda mais confusa sobre o que de fato se passou aqui.

Mas, se algo me serve de consolo, é que me disseram que geralmente é assim mesmo que a coisa funciona: “Nem nós mesmos entendemos o que houve aqui e porque tais coisas grotescas ocorreram.”

É minha segunda manhã em Mostar. Estou a ter um típico café da manhã bósnio para despertar.

Recebo nas mãos o prato de berinjelas fritas por Majda. Olhos azuis, véu creme, pele extremamente alva, braços e pescoço cobertos. Sento-me à mesa que possui o maior número de pessoas: quero ouvir o que elas vão fazer hoje, afinal, meu roteiro é não ter roteiro fechado.


Torradas e berinjelas fritas para o café da manhã. Nada muito saudável, hein?!


Dois meninos conversam entre si sobre irem à antiga sniper tower. Intrometo-me e pergunto se posso ir junto com eles. Já havia lido sobre a torre e sabia que não queria entrar nela sozinha.

– Você acha que consegue escalar um muro alto e pulá-lo? Parece que é um pouco difícil de entrar lá

– É claro que sim!

– Ok. Nos encontramos aqui às 10 horas.

Você se lembra daquele dia de sua infância que você ficou sabendo que um grupo de crianças mais velhas iria fazer algo que você considerava super desafiador e você ficou louco para fazer parte do plano deles? Pois é … Só que no meu caso, agora estava eu com meus 32 anos ouvindo os planos de 2 meninos de uns 10 anos a menos para escalarem os muros de um antigo prédio abandonado, sabidamente considerado um lugar não muito convidativo.

Mas eu queria realmente ver este prédio. O que me movia era a intensa curiosidade por entender um pouco mais sobre o que se passou aqui, enquanto eu levava uma vida de longe muito mais tranquila, lá do outro lado do mundo.

Chegamos na frente do que parecia ser compatível com o que procurávamos. Um prédio feio, detonado, onde não se pode esperar por placas ou algum tipo de museu. Tão pouco há uma porta, pois como falei, este não é um local receptivo.



Circulamos para um lado. Circulamos para outro. Além de não haver uma porta de acesso as janelas eram um tanto altas.



Já na parte de trás do prédio, fiquei com medo de ser a “véia coroca” da história dos meninos, portanto, botei força nos braços e pernas e sentei-me de supetão na abertura de uma das janelas, raspando de leve meus joelhos.  Da janela pulamos ao chão do interior do prédio escuro, repleto de cacos de vidros e destroços da construção que um dia chegou a ser um moderno banco de oito andares.

O que de fato vimos na antiga Sniper Tower de Mostar?

Não se engane com a arte e as cores que apenas parcialmente escondem buracos de balas e marcas da violência de um símbolo vivo do que ocorreu nessa região. Nada aqui é bonito, tão pouco o que se testemunhou desta vista privilegiada da cidade.




Diversos andares de lixo e ruínas apodrecendo lentamente em uma porção nobre e geograficamente central da cidade de Mostar. A construção é uma memória viva da guerra, do terror e da ainda necessidade de reconstrução da cidade e deste povo.



Entenda que Mostar é dividida pelo rio Neretva. As águas dividem a cidade em porções leste e oeste. O lado leste é onde fica a cidade velha, também considerado o lado muçulmano de Mostar. Já o lado oeste é onde se encontra a parte mais luxuosa da cidade, habitada basicamente por servos e croatas.

A antiga sniper tower é um ponto com uma vista ampla de boa parte da cidade, e  que fora utilizado basicamente de 1993 a 1994 como mirante para eliminar alvos bosniaks (bósnios muçulmanos), leia-se: “seres humanos.”


 



Vista da cidade de Mostar do último andar da antiga Sniper Tower


Não sei se foi a altura, o aspecto de lixo daquilo tudo ou o medo que senti quando tentei imaginar quem estivera por ali e que coisas poderiam estar passando em suas cabeças há algumas décadas. Em algum momento, olhei do alto do prédio as pessoas em suas casas ou andando na rua e pensei que, há poucos anos, este movimento já seria motivo suficiente para que alguém disparasse suas armas. Fiquei nauseada e meu estômago quase revirou as berinjelas tomadas no café da manhã.

Apesar deste ser um lugar nada agradável, preciso dizer que a Bósnia é um destino bastante interessante para quem pretende visitar a Europa.

O país não é mais um local inseguro, existem muitas belezas naturais, os custos são baixos, a comida é boa e os locais tendem a tratar o turista de boa maneira. Sem falar na rica história da região, um prato cheio para questionamentos e aprendizados.

E antes de você sair desta página, querido leitor, compartilho uma frase para você levar consigo na rotina dos seus dias corridos, onde o piloto automático nos faz vorazes engolidores de bom senso: “Estamos todos vivendo sob o mesmo céu“.

De fato estamos. Pena que às vezes somos tão estúpidos e esquecemos do óbvio.


Preciso falar mais uma coisa! Não vá até este lugar. Se for, não vá sozinha (o). Se estiver com outras pessoas e decidir ir, não vá de noite e cuidado ao escalar ou caminhar, pois é muito fácil de você se machucar. Não caminhe nas beiradas das escadas e tenha cuidado ao chegar perto de qualquer janela ou laterais da construção pois em muitos lugares não há parapeito, ou seja, NÃO HÁ PROTEÇÃO. Isso porque este não é lugar para turismo e, portanto, não é um lugar seguro. Por fim, não seja um mocorongo a despeitar este lugar: este não é um lugar para selfies esdrúxulos..

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