Diarreia mental e o e-mail que eu não mandei

- Atualizado em 28 de fevereiro de 2016 - , , , , ,

vina-del-marComecei este texto como um e-mail que mandaria. Mas, aí, o fluxo da escrita tomou um rumo meio maluco e decidi não mandar o e-mail e torná-lo um post.

Oi, Eveline!

Aqui vai mais um e-mail desses tantos outros que você recebe de seus leitores. De qualquer forma, vou escrever mesmo assim e, quem sabe, um dia a gente possa trocar uma idéia sobre as benesses da escrita, sobre cair no mundo ou sobre algumas outras coisas da vida que afligem a alma dos inquietos.

(…)

Tenho 31 anos. Nunca casei. Sem filhos. Sou médica e professora. Não estou descontente com a minha rotina, estafada, questionando tudo o que fiz até hoje, ou vou logo pedir conselhos sobre algum destino para o qual pretendo viajar. Sei bem onde estou, por que motivo fiz as escolhas que fiz, e porque coloquei alguns planos em stand by lá no passado.

Eu me chamo Karen. Gosto da minha rotina. Sou grata pela vida que levo. Além disso, também tenho um blog, só que, por enquanto, ando encabulada pelo fato de tê-lo: erro no português, não consigo escrever com fluidez nem no tom e frequência que gostaria.

Anyway, como faz parte da apresentação, preciso contar que criei o tal blog quando passei quase um mês no hospital com minha mãe, junto ao meu irmão. Ela era a paciente e a gente estava por lá buscando um pouco de conforto enquanto a morte chegava cada dia um pouco mais perto.

Eu não era nem de perto uma Isabel Allende*, mas essa – até então desconhecida face do hospital onde eu era a acompanhante – mexeu de mais comigo. Senti vontade de sentar na cadeira do hospital e começar a escrever.

Em abril/15 eu buscava desenferrujar as primeiras palavras sobre algumas viagens que tinha feito. Naquele momento, o clima era pesado, e, como médica e filha, calejada de várias quimioterapias e radioterapias prévias, sabia dos fatos e precisava de alguma fuga mental, algum assunto paralelo compatível com a situação em que nos encontrávamos. Então, ESCOLHI VIAJAR para fora de todo aquele sofrimento, ocasionalmente. Pode-se dizer que foi minha fuga, mas foi assim que o tal blog de fato foi ao ar.

Por sorte, minha mãe ganhou mais alguns meses de vida fora do hospital – meses nada fáceis, diga-se de passagem. E foi durante esse período de hiato, quando um dia chamei alguns amigos próximos para comemorar o lançamento do tal blog.

Era uma bobagem, mas sabia que ali poderia ser uma oportunidade de despedida. Naquele dia, foi a última vez que ela foi até a sala em um momento festivo. Foi a última vez que ela falou com alguns de meus amigos também. Um adeus onde não se disse adeus, mas, que importam as exatas palavras?

Aliás, tenho gostado muito de “bobagens” nos últimos tempos – ah, se tem uma coisa que o câncer ensina é as valorizarmos! Com o tempo, e essa barra toda, entrou de vez na minha cabeça que a gente não precisa de muita coisa para juntar os amigos, abrir um vinho bom e ir para a cozinha preparar, com carinho, um rango gostoso para quem a gente quer bem. Tenho chamado isso de “culinária afetiva”, e é uma modalidade de demonstração de afeto que muito me agrada proporcionar e usufruir: “eu gosto tanto de você que estou aqui lhe preparando algo todo cheiroso e colorido!”.

Aprendi isso quando percebi que até mesmo conseguir engolir um pedaço de carne pode ser a maior alegria de um dia todo. Por isso, comemorar “bobagens” é uma coisa maravilhosa a se fazer junto a outras pessoas, principalmente se não há impeditivos apocalípticos que nos impossibilitem de comemorar singelos fatos.

Por falar em fim dos tempos, na verdade, tenho mesmo que falar um pouco sobre esse assunto para chegar à parte onde vou expor um pouco mais da minha vida (nessa altura eu já tinha decidido que a coisa estava tomando um rumo descontrolado e, como esperava por essa fluência, vinda em forma de palavras, tomei a decisão que não haveria mais um e-mail: era chegada a hora!).

Éramos três combatentes. Aí, em 2009, veio o câncer e ele nunca mais foi embora. Quimios, exames, radioterapias, cirurgias, novos remédios, novas estratégias, hospital, clínica. As suas sessões semanais de pilates foram trocadas por uma nova rotina semanal e a vida de nós três nunca mais foi a mesma.

vina-del-mar-nubladoSoldado número dois, Viña del Mar, em um bate-volta mal programado partindo de Santiago

O tal câncer nunca deu trégua e, como em qualquer batalha longa que dura seis anos, foi preciso achar paz interior em meio à guerra, da maneira como deu, das formas que conseguíamos (e que também não conseguimos). Mas ela sempre esteve no batalhão de frente, sem nunca reclamar – mesmo quando o ferimento nos chocava e ardia nos nossos olhos e na nossa alma de filhos.

Até que um dia ele se foi, levando consigo o que ainda não tinha conseguido tirar dela. Julho de 2015: mês em que sobraram apenas dois soldados para seguirem com as suas próprias batalhas.

Existem coisas que são mesmo uma verdadeira bomba atômica nas nossas vidas de falhos e medrosos mortais. A morte. A doença. O sofrimento. Tudo isso detona e dá vida ao mesmo tempo. Você sente e absorve o conhecimento de modo irrefutável, de maneira que parte de você quer sair correndo a cada novo lampejo de consciência das coisas. Há muito por fazer.  Dizer que “você passa a querer viver os seus sonhos” é ser o cúmulo do clichê, e eu não creio (não mais) que a vida seja essa coisa Poliana de viver a vida simplesmente guiados pelo que nos dá prazer, pelo que é fácil ou cômodo.

A vida não é só rapadura e cortar a cana para ajudar no trabalho do outro pode ser chato, mas é parte de estar vivo e fazer jus ao contexto do mundo. O prazer ganhou para mim outra conotação: coisas simples e que podem ser importantes a outras pessoas hoje são muito mais importantes para mim.

Mas todo mundo, todo ser humano, tem um lado secreto, um lado emotivo, um lado artístico, um lado criança, um lado bobo e meio maluco que existe por existir, porque faz parte de quem somos e carece de ter sua finalidade determinada.

A questão é que passar por alguns perrengues, como um câncer na família, faz a gente se questionar sobre onde andam trancados alguns pertences importantes da nossa alma.

Por “sobrevivência”, burrice, medo, falta de instrução, falta de espiritualidade, falta de tempo, falta de uma bússola, a gente esmigalha esse lado em algum canto da nossa alma, entra no automático e, quem sabe, até oferece menos ao mundo por virarmos pessoas, assim, politicamente corretos, e, portanto, medíocres, meros fornecedores de… migalhas (!) ao mundo.

Então, se tivermos sorte de nos dar conta de toda essa burrice antes do fim desta existência, um dia, de joelhos, a gente começa a pedir desculpas para nossa sensibilidade, nossa criatividade, nosso brilho e tenta reencontrar e reconstruir nossa essência e nossos verdadeiros valores.

Em algum momento, durante esse processo de seis anos – não sei bem quando foi –, teve uma hora em que me dei conta de que havia caído e batido com a cabeça no chão (bem forte!). Acordei bem louca pensando: “que rumo eu estava tomando nos últimos anos da minha vida?”

Entre muitos pensamentos desses e outros do estilo, um dia entrei numa festa. Queria dançar. Ninguém disse que eu não podia entrar, mas achava que ali não era lugar para mim. Meu nome não estava na lista e, como sempre, achei conveniente seguir as listas, não tinha certeza se poderia entrar. Depois de cair e bater a cabeça, resolvi entrar. Comecei ouvindo o ritmo, observando as pessoas.

Estava com vergonha, minha roupa parecia inadequada e já não lembrava mais como dançar. Mas aí, quase um ano após ter colocado o blog no ar, na expectativa de “algum dia conseguir escrever livremente”, hoje, um domingo ensolarado, trivial, numa paisagem normal, vivenciando sentimentos normais sobre a vida, pela primeira vez, eu assim o fiz. Era a minha música e, sem perceber, comecei a dançar.

Lembrei por que tinha me arrumado para sair de casa. Lembrei como eu gostava de dançar e como eu estava sendo boba de ter ficado tanto tempo passando vontade, observando os outros a se divertir.

Da próxima vez, quero ver se me lembro como ousar com alguns passos acrobáticos. Não importa se vão achar ridículo, só não quero morrer sem dançar como dançava e é isso o que importa. Cada um sabe dos seus sapatos e seu gingado (ou a falta deste, mas intenção do mesmo, hehehe).

E agora estou nervosa, engasgada. Lembrei-me de muita coisa. Escrevi pela primeira vez aqui em primeira pessoa, falei de coisas pessoais, falei a minha idade, discorri sobre a morte com um tom de desabafo, como se a tela do computador fosse uma latrina e eu andasse por horas procurando por uma.

Desta vez não falei de roteiros, não tentei ser o Lonely Planet tabajara, que muitas vezes fui. Não vou ler este texto duas vezes, (tá, admito. Eu voltei e dobrei o número de caracteres, mas é porque eu ainda estava com o “ritmo fervilhando”).

Sim, está lançado o meu direito à diarreia mental. Um termo que uso desde a faculdade e, sinceramente, nunca mais havia praticado.

Desculpe leitor, se o texto de hoje não é exatamente sobre viagens nem está Trip Advisor o suficiente. É que eu já vinha me questionando sobre o quanto esse espaço não estava tendo o verdadeiro valor que imaginei que um dia teria, já que as coisas que vinha escrevendo poderiam apenas ser classificadas como “úteis” (isso sendo bem gentil), e utilidade pode ser uma coisa bem inútil.

O post de hoje foi para mim – um verdadeiro exercício de autocompaixão. Agora, para o exercício ser completo, não quero mais engavetar palavras como o tanto de rascunho digital e em papel que já fiz nesta vida de escriba amadora.

Hoje, não. Vou tentar ser justa com meus dejetos mentais. Hoje, esses vão para a vitrine, porque está na hora de tomar vergonha nessa cara e fazer a contagem regressiva para o que realmente importa (só posso contar sobre isso nos próximos meses), exercitando o que realmente importa. Sim, hoje eu Escolho Escrever (em maiúsculo mesmo).

E está declarado: não sou o Wikipedia, nem quero ficar horas editando fotos, estudando SEO, ou pensando em como pondero minhas palavras para “ficar neutra” em algum texto. Não criei o Escolho Viajar naquele hospital enquanto o soro pingava para eu agora não dançar.

Ainda existirão posts, assim, “teóricos”, voltados para meus amigos que me perguntam como chegar de A a B. Mas quero deixar aquela menina que a mãe ensinou a escrever poesias quando pequena, correr lá fora no pátio e brincar com as palavras um pouco.

E você, o que está esperado para dançar?


Nota sobre a foto de capa:

Tentei achar uma foto sem maquiagem. Espontânea. Sem Photoshop. Descabelada. De perfil – meu ângulo “preferido”. O que importa é que a foto diz tudo. Eu e ela, ela e eu. Num lugar que achei não tão legal quanto diziam (Viña del Mar/Chile) e onde ela, com sua pele fininha, naquele dia passou frio. Fuça com fuça, na última vez em que ela viajou. Eu olhando para ela, ela olhando para o mar. Onde quem tirou a foto é quem é a minha família hoje. Correu uma lágrima aqui.


Nota mental:

Vai ser preciso incluir no blog uma categoria chamada “Diarreia mental” uma hora dessas. Tá bom, quem sabe algo mais bonitinho, como “Coisas da vida” (aqui surgiu a sessão  que mais tarde foi intitulada “Caixa Preta”).


*A escritora Isabel Allende começou a escrever o livro “Paula” em 1991 em um hospital, onde sua filha de 28 anos permaneceu por vários meses, por conta de um coma do qual ela jamais retornou, vindo a falecer aos 29 anos. Eu desconhecia este fato, e agradeço ao querido Hercílio pelo ensinamento e incentivo, além de que tenho de concordar com suas palavras: “o tempo dos hospitais é um tempo fora dos padrões rotineiros. É um tempo que se alonga, que para, que ensina a meditar ‘na marra’.”


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