Como se preparar psicologicamente para grandes mudanças de rotina, carreira ou país

- Atualizado em 11 de setembro de 2017 - , ,

Não foram nem uma nem duas vezes que meu telefone tocou pelo mesmo motivo. Uma pessoa amiga ou outra nem tão próxima assim dizia que precisava falar comigo. Essa pessoa atravessava o que poderíamos chamar de “crise existencial”.

A conversa sempre vinha com um fundo comum. Uma sensação de insatisfação avassaladora. Uma inquietação com ganas de mudanças. A esperança em algum cenário salvador. A falta de bússola por guiar. E, por fim, o medo que gerava uma angústia imensa e tristeza perene nas atividades do dia a dia.



Pôr do sol em San Andres, Colômbia, 2015


Depois de ouvir era hora de baixar o Chicó que habita em mim e largar também o meu “não sei, só sei que foi assim“.

Nessas conversas que se passaram, certamente compartilhei um pouco sobre como foi o meu processo de decidir dar uma pausa na minha carreira de médica e professora universitária no Brasil em busca de uma nova experiência, primeiramente de vida e, no futuro, também no campo profissional.

As aflições individuais nos são familiares e inerentes à nossa condição humana. Por isso, buscamos outras histórias, vasculhamos semelhanças e processamos os dados com o intuito de encontrarmos nossas próprias saídas. Assim entendo que essas mensagens e telefonemas foram uma busca por alento, do mesmo modo que eu também já busquei me encontrar na história de outros anônimos.

E se no meio de meu processo, encontrei algumas respostas, tão somente minhas – isso é bem verdade -, imaginar que elas também podem ser hoje parte de suas perguntas é meu único motivo para escrevinhar.


“Grandes mudanças” não são necessidades e possibilidades de todos


 

A primeira coisa que diria a um amigo sobre o assunto “grandes mudanças” é que elas não são necessidades e possibilidades de todos. Existem limites internos, individuais, coletivos, financeiros, de idade, de saúde, de timing

É preciso absolver-se por não poder mudar. Por não querer mudar. Por não saber como. Por postergar. Por não conseguir.

Autocompaixão no caminho, por favor. Dureza é justamente algo que não combina com uma situação moldável, com algo que está por se transformar.

E se para Toquinho “a vida tem sempre razão”, eu complementara dizendo que a vida tem sempre loucura e que essa loucura é a própria razão dos fatos.

Existem assuntos que serão desenterrados pela vida lá adiante. Provavelmente em um momento bem mais apropriado.


Não idealize em demasiado mudanças em grande escala



Voltando do trabalho para Santa Maria em um final de tarde.

Paraíso do Sul, 2012


Hoje preciso dizer que não sou uma defensora convicta de mudanças em grande escala. Pelo menos não mais do jeito que eu as imaginava há uns cinco anos atrás. Talvez porque eu tenha atingido o ápice das mudanças que desejava (até o momento), talvez porque tenha me tornado mais madura com os anos. Talvez porque a doença e a morte de alguém que eu amava tanto ainda dói dentro de mim não importa o quanto eu tenha mudado e me mudado.

Mudanças em grande escala reorganizam ambientes, proporcionam novas experiências, acrescentam novos conhecimentos, mudam rotinas e reestruturam alguns fluxos de pensamentos. Mas, algum tempo após o fato em si, muitos comportamentos retornam a um padrão basal.

Um divórcio pode sanar uma questão de violência doméstica justificando, sem dúvida, por si só a mudança em si, mas não vai resolver tantos outros problemas que necessitarão de outras novas mudanças.

Trocar de emprego pode melhorar o salário e nos trazer um novo círculo de amizades. Mas após certo tempo, uma nova rotina chega (mas chega) e as mesmas dificuldades interpessoais enfrentadas previamente virão agora remodeladas em um novo contexto.

Não existe terra prometida. Existe terra que pode ser mais fértil para o campo que temos interesse em desenvolver no momento. Apenas isso. Ademais sempre existirão desafiando o cultivo, as intempéries da natureza, sobre as quais não temos total controle.


 Grandes mudanças podem ser justamente pretexto para nada mudar



Após dois meses em Viena, meu primeiro inverno “brabo”,  Novembro de 2016


A cilada sobre as grandes mudanças é que elas podem significar uma imensa distração, e nada mais do que isso.

O anseio por uma mudança grandiosa pode valer apenas como o intuito de evitar as pequenas, aquelas que na verdade são bem mais realistas e tangíveis, motivo pelo qual não teríamos desculpas por não as cumprir.

Pequenos e contínuos passos são muito mais capazes de construir caminhos do que corridas em disparada que nos fazem perder o fôlego e danificar temporariamente ou permanentemente o que nos dá sustentação.


Grandes mudanças pelos motivos “errados” podem trazer resultados ainda mais penosos



Praga, Janeiro de 2017


Para manter-se firme na navegação da vida é preciso achar sentido no que se está fazendo. A lógica do que se vive deve ser compreendida e andar alinhada às próprias crenças e propósitos. Caso contrário, volte e meia giramos em um redemoinho mental que nos leva a lugar algum.

Desejo de admiração, satisfação pessoal, entendimento do ambiente exterior que nos cerca, manutenção da espécie, desejo de crescimento pessoal ou intelectual. Guiamos nossas vidas e decisões por causas diversas: instintivas ou refletidas, por vezes mais genuínas, por vezes menos nobres.

Se o anseio por uma grande mudança no ambiente, na rotina, no campo pessoal ou profissional é uma realidade, melhor seria se os motivos estivessem de acordo com verdades pessoais, que seguem um julgamento próprio crítico, embasado e autocondescendente.

Mudar por uma tentativa inocente de controlar o ambiente ou outras pessoas é um erro grave.

Mudar por tentar impressionar outras pessoas jamais trará o efeito desejado, já que as outras pessoas têm mais o que fazer.

E, por fim, mudar para fugir de frustrações é como imitar um cachorro que corre na busca do próprio rabo jamais chegando ao fim do percurso.

Agora, se sua grande mudança é de fato uma necessidade e uma possibilidade, seus motivos são verídicos, alinhados com a busca de melhorias em sua vida e você está ciente de que essa grande mudança é apenas um ponto luminoso no universo todo de sua vida e da coletividade, é hora de seguir adiante e abrir espaço para um processo que pode ser longo.

Reza braba. Leituras. Terapia. Yoga. Que venha tudo aquilo que pode dar poder aos seus passos!

Por fim, deixo aqui duas listas.

A primeira é sobre alguns materiais acessíveis pela internet que me auxiliaram a entender, aceitar, desenhar e efetivar a grande mudança de deixar o Brasil sem prazo de retorno.

A segunda, surgiu de minha pergunta a outros blogueiros de viagem sobre o que funcionou como amparo em suas grande mudanças.

E, se você já viveu ou passa por este momento atualmente, que tal contar as suas dicas ao final deste post?



Hallstat (Áustria), julho de 2017


The Science of Happiness – Curso online gratuito da Berkley University

Através de vídeos e textos que tem como base estudos desenvolvidos no campo científico sobre o assunto felicidade, o espectador vivencia uma experiência transformadora. A elucidação de conceitos, apresentação de resultados de estudos e explicações de especialistas sobre o assunto levam à uma nova visão sobre o tema. As lições são ricas e, sem dúvida, podem auxiliar no processo de grandes mudanças.

Priya Parker em TED Talks

A palestra de Priya dura menos de 20 minutos mas serve como grande questionamento para aqueles que planejam mudanças no campo profissional. A apresentadora defende que nossos medos e ansiedades não são apenas um problema individual e sim um problema coletivo por minarem o progresso individual e de todos nós. O vídeo ainda propõe um interessante exercício chamado “teste do obituário”. Vale a pena conferir.

Mark Manson

Mark Manson é um americano que escreve em seu blog há mais de dez anos. Os assuntos são diversos como escolhas de vida, aprimoramento pessoal e relacionamentos e é possível ter acesso a boa parte de seu material de forma gratuita. É possível encontrar alguns textos traduzidos para o português.

The School of Life

The School of Life é uma organização com sede em Londres dedicada ao desenvolvimento de inteligência emocional. Sessões de terapia e também palestras, vídeos e artigos relacionados ao assunto são oferecidos ao público. O vídeo abaixo é um exemplo do modo como assuntos diversos são abordados pela instituição, trazendo informação, novas ideias, e, porque não, alento.


A Isabela Bastos do blog Viajapedia relembra a leitura de um livro especial no momento que antecedia sua mudança de país.

“Nas vésperas da mudança para Portugal com marido e um bebe de um ano, me vi atravessando dias de ansiedade e estresse. O marido vendo todo o conflito que se passava na minha cabeça me ofereceu um livro, na época recém publicado, de uma jornalista brasileira que passou toda uma vida sonhando em morar no exterior. O nome do livro é Atravessando o Oceano, com autoria de Silvia Lourenço.

Silvia faz uma reflexão sobre o cotidiano de uma  jovem que sonhava em morar e como estava sendo sua nova realidade em Londres. O livro aborda as etapas enfrentadas no decorrer da mudança: o entusiasmo inicial, a falta de contentamento e a saudade passado, o momento de euforia do novo e por fim o equilíbrio e a realização de se sentir em casa em outro país.

Ler este livro antes da partida foi essencial para eu compreender que também passaria por todas estas fases e, que por mais que todos achem que essa coisa de morar no exterior é o máximo, morar fora não é como estar continuamente em viagem. Isso fez com que eu ponderasse a saudade e o medo da mudança, e muito mais, me fez perceber que estava tomando a decisão certa e no momento certo.”

A Cláudia Bins do blog as Passeadeiras cita uma lista de vários itens práticos envolvidos na mudança de país de sua família e que também contribuíram como amparo e bem-estar psicológico de todos.



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