30 minutos de um (des)amor turco na Sicília

- Atualizado em 6 de agosto de 2016 - , , , ,

don-corleone-palermo-mafia-sicilia


Um amor turco. Ou italiano. Ou brasileiro. Ou um desamor. Ou um ex-amor.


Está quente como o inferno e acabo de colocar a roupa no varal. São toalhas um pouco batidas que colorem a sacada e pingam em que passa lá em baixo.

Sim, pingam mesmo, mas que nada, estamos na Vucciria e receber uma gota de água limpa na testa é na verdade um batismo light se comparado à possibilidade de água perfumada à peixe que por cá também pode ocorrer.

Passei a última hora arrepiada, de verdade. Tenho dessa coisa de que quando minha alma é abraçada fico parte de mim ouriço.

Essa moça chegou com sua mochila amarela, tão pesada quanto a minha que carrego de um lado ao outro nos últimos meses. Viaja sozinha também, assim como eu.

Pergunto no que trabalha e me diz que acaba de deixar seu emprego de gerente. Pego seu passaporte na mão e faço seu check in.

Turquia? Digo que desejo muito conhecer Istambul. Ela baixa os olhos e diz que agora não é um bom momento devido a questões de segurança. 36 anos? No way! A mim me parece ter no máximo 30!

Sem convites ou combinações ela senta à mesa comigo. Me fala que gosta do Rio pois conheceu um novo amor por lá.

Não sei qual botão apertamos, mas em 30 minutos tivemos uma conversa intensa. Falamos de homens, de amores, de passado, de dores, de perdão, de novas metas, de valores.

Sinto um aperto no peito por ouvir o que me diz. Ouço sua história desastrosa de um amor que se passou na Turquia há três anos. Uma narrativa talvez de muito mais desamor que qualquer outra coisa. Logo ganho braços como o couro de uma galinha por debaixo de suas penas.

Mostro o que ocorre a mim a ela. Ela sorri e me diz que eu devo estar a compreendendo. Digo que sim. Eu já ouvi essa mesma história antes. Alguém já molhou meu ombro com ela.

Não tenho amigos da Turquia, tão pouco tive muito contato com sua cultura, mas eu a entendo. Em meia hora, verdadeiramente sinto sua dor e vejo sua recuperação. Afinal ela está aqui, caiu em movimento e fazem alguns meses conheceu um italiano justamente no Rio de Janeiro.

Esse moço parece ser um desses de valor. Não é ela quem me diz, mas concluo por coisas que me conta. Penso que um dia ela se casa com este napolitano e ela me parece merecer isso.

Seu celular bipa, ela sorri e diz “minha amiga turca está casando neste exato momento”. Olho a tela de seu celular e me encanto com um vestido branco deveras elegante e único. Mal acabo de pensar isso e ela me diz: “estou encantada com este vestido”.

Lá fora um grito de reggaeton corta nossa conversa. Curiosas apressamo-nos para a sacada. Estamos em um sábado à tarde na Sicília e a Vucciria de Palermo se prepara para mais uma noite de cheiro de peixe, músicas latinas, volume alto, pizza e cerveja quente.


vucciria-palermo


Este texto se passa ao fundo da minha primeira experiência de Workaway, no bairro Vucciria na cidade de Palermo, Sicília.


 

 

 

 

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar