10 dias de meditação em um templo budista na TAILÂNDIA

- Atualizado em 5 de abril de 2016 - , , ,

templo-chiang-mayA entrevista desta semana é com Edy Pereira, brasileira de 32 anos que deixou o Brasil em julho 2015 para vivenciar um ano sabático.

A Edy mora atualmente em Dublin, mas aproveita o templo livre das aulas de Inglês que tem por lá para viajar para outros países e ter experiências interessantes por onde passa, como essa de permanecer em isolamento por 10 dias no templo Wat Phradhat Doi Suthep em Chiang Mai na Tailândia.

 

 Escolho Viajar – Edy, como foi que você foi parar em um templo na Tailândia para meditar por 10 dias? De onde surgiu essa ideia?

Edy – De onde saiu essa ideia? Há alguns anos eu comecei a ter vontade de passar uns dias em um mosteiro. Achava incríveis as histórias que eu lia a respeito, pois eu sempre entendi que voltar-se para si mesmo transformava as pessoas em seres ainda melhores.

Quando eu planejei minha ida para a Tailândia, sabendo que o país, e especialmente a cidade de Chiang Mai, é muito espiritualizada e predominantemente budista, eu logo tive certeza de que seria lá que eu viveria minha experiência.

O desafio seguinte era escolher um dos vários locais disponíveis para meditação por lá. Mas como nada acontece por acaso, meu querido amigo irlandês me indicou o filme documentário The Dhamma Brothers, que se trata de uma incrível história da meditação Vipassana aplicada dentro de um presídio por 10 dias e sua contribuição na transformação da vida daqueles presos (documentário recomendadíssimo). Quando terminei de assistir, já tinha decidido que era este tipo de meditação que eu queria fazer, e foi este mesmo amigo que me ajudou a achar este templo na Tailândia.

templo-ching-mai-tailandiaEscolho Viajar – Como foram os seus primeiros momentos no templo? Como você se sentiu ao adentrar nele?

Edy – Eu já tinha passado outros 8 dias na cidade e conhecido diversos templos, mas esse era diferente e um dos mais famosos e visitados da Tailândia. Ele fica no alto de uma montanha e mergulhado em uma reserva ambiental muito bonita, além de ter uma vista incrível para toda a cidade.

Eu sou uma garota bastante corajosa, mas este foi um momento tenso, eu tinha medo, muito medo de como seriam esses dias. Quando estava na porta ainda liguei para meu namorado que vive no Brasil e chorei um monte, porque eu tinha certeza que aquele seria um dos desafios mais duros da minha vida.

Para chegar ao Centro de Meditação eu cruzei caminhando todo o templo, e comecei a seguir as placas indicativas através de escadarias. Passei pelas casas dos monges, e enfim cheguei. O lugar é bastante simples e como diversos outros locais da Tailândia, peca bastante pela falta de higiene.

chian-mai-doi-sthepFriamente o garoto da recepção me entregou a chave do meu quarto e me orientou com os horários da celebração de boas vindas.

Quando cheguei no quarto e “sentei” na cama, já tive certeza de que seria mais difícil do que imaginava… nunca antes havia visto um colchão tão duro.

Era  uma cama absolutamente desconfortável, (algo parecido com uma madeira forrada, era o meu colchão), uma corda de varal esticada e algumas almofadas de meditação. Eram 5 dormitórios individuais por corredor, e no final de cada corredor havia alguns banheiros.

Não existe qualquer tipo de aproximação mais carinhosa entre as pessoas, é tudo bastante superficial, sem grandes contatos. Exceto durante todas as manhãs, quando tínhamos uma hora de encontro com o professor, que além de todas as coisas lindas que falava, às vezes dávamos umas risadas bem discretas. No mais, o clima era sempre de muita introspecção.

Escolho Viajar – O que se passou por lá durante esses 10 dias?

Edy – A cerimônia de abertura foi bastante simples, como tudo naquele lugar, um monge vestido com aquele tipo de lençol alaranjado, me deu as boas vindas. Tivemos um pequeno ritual onde eu lhe ofereci flores, e cantei um pequeno mantra. Este mesmo monge foi o meu professor para os próximos 10 dias junto aos demais meditadores do grupo. Todos os dias alguém entrava e alguém saía mantendo sempre o número de 12 a 20 pessoas em cada grupo.

As regras principais eram essas, mas existiam algumas outras orientações principalmente relacionadas às práticas budistas.

– Não praticar outro tipo de meditação paralela a Vipassana ( yoga, tai chi, exercícios aeróbicos);

– Dieta vegetariana, não sendo permitido comer qualquer tipo de carne;

– Não fumar e beber álcool durante estadia;

– Não comer alimentos sólidos após 12:01…ou seja depois do meio dia apenas chá e água;

– Não falar com outros meditadores e evitar contato visual;

– Não escrever, ler, escutar músicas, usar internet, telefone;

– Não tirar nenhuma vida ( formigas, insetos, etc)… “ Se você não for capaz de conviver com o animal, saia você do ambiente);

– Abster-se de pensamentos sexuais ilícitos;

– Abster-se de camas e cadeiras confortáveis;

Depois de saber das regras eu precisava saber da agenda diária, e acreditem ela era exatamente igual todos os dias e para todos os meditadores.

meditacao-budista-ching-mai05:00Acordar

05:30Encontro diário com o professor para aulas sobre fundamentos budistas, lindo de viver. Em todos os encontros ele falava sobre a importância do amor próprio, do controle de nossas emoções, de mantermos nossa mente limpa, de mantermos os bons pensamentos e energias, bondade, compaixão e dezenas de outras coisas lindas.

7:00 – Café da manhã, o primeiro grande desafio.

8:00 – 11:00Meditação. Várias séries de 30 minutos (15 minutos caminhando lentamente sobre um tapete longo + 15 minutos sentada com as pernas cruzadas à frente). Entre cada série, pequenos intervalos de 5 a 10 minutos. Ao longo dos dias, o professor ia aumentando o grau de dificuldade, e me dava exercícios de respiração diferentes, além de aumentar os tempos das meditações de 15 para 20, depois para 25 e nos últimos dias 30 caminhando e 30 sentada. Nos primeiros 5 dias além de não conseguir dormir, as dores no corpo eram insuportáveis ao final de cada série. Cãibras, dores musculares e um sentimento absurdo de frustração, porque tínhamos o exercício de não pensar em coisas do passado e nem do futuro, e sabe quando diz para uma criança que ela não pode fazer algo? Pois é….parece que meus pensamentos foram triplicados, eu pensava em coisas e pessoas o tempo inteiro, e muito mais intensamente do que antes de estar lá.

11:00 – Almoço. Nada muito diferente do café da manhã, sempre aquela surpresa desagradável. Ainda bem que tínhamos que evitar o contato visual, porque tiveram dias que a comida era tão ruim, que se nos olhássemos acho que cairíamos na risada. Mas acreditem, a partir do sexto dia um milagre aconteceu, e comecei a achar a comida gostosa… Eu não sabia se era pela fome que estava tão grande que o ruim já tinha se transformado em bom, ou se era apenas o corpo acostumando com a nova dieta.

12:30-13:30Meditação novamente.

13:30 Feedback com o monge. Ele perguntava se eu estava bem e independente da resposta ele já me passava as novas orientações de respiração e tempo da meditação. “Estou há 4 noites sem dormir e sinto muitas dores a cada intervalo, não consigo completar os 15 minutos, bla, bla….” E ele: “Ok é normal, você é iniciante…a partir de hoje aumentamos para 20 minutos e seu novo exercício é…..” Eu agradecia, abaixava a cabeça, respirava e ia fazer…rsrs.

14:00-18:00 – Meditação. Sim, pessoal, incansavelmente… eram 10 horas de meditação por dia, 5 caminhando e 5 sentada.

18:00 – Chatting. Um encontro entre todos os meditadores, onde cantávamos juntos diversas músicas. Era sempre muito engraçado, mais o primeiro dia foi o mais cômico, porque era impossível acompanhar a letra, e a vontade de rir junto com aquela pergunta “o que estou fazendo aqui?” era mais forte do que eu. Mas nos dias seguintes, eu me apaixonei por este que eu considerava o momento mais especial do dia, e até saí com as minhas musiquinhas preferidas.

19:00-21:00 – Meditação….kkkkkk……sim, as duas últimas duas horinhas do dia.

21:00 – Exercício de respiração deitada, e depois dormir!

meditaçãoComo já mencionei, os 5 primeiros dias foram de sofrimento absoluto em todos os momentos do dia. Mas incrivelmente no sexto dia as dores desapareceram, a comida passou a ficar mais saborosa, a mente acabou ficando limpa e finalmente encontrei a energia e felicidade de conseguir meditar em alguns momentos.

Em apenas 3 dias eu consegui completar as 10 horas diárias de meditação na íntegra e a sensação de dever cumprido foi algo muito especial. Foi emocionante conviver com todas aquelas diferentes pessoas e não saber absolutamente nada sobre elas. Dividíamos os mesmos espaços mas não sabíamos nada um do outro, de onde eram, o que faziam, porque estavam ali. E sabe o que todas essas coisas significavam para mim? Nada! Não importava quem eles eram ou o que faziam. Só importava que eles estavam ali, dividindo comigo uma das experiências mais incríveis da minha vida.

No último dia, eu tive uma pequena celebração de encerramento (todos os dias acontecia com alguém que deixava o Centro, mas a gente nunca via porque estava meditando. Era como a ilha de lost….todo dia alguém desaparecia do grupo…rs).

Durante a celebração, cantamos juntos, ofereci novamente flores para o monge, e ele passou algumas orientações para darmos continuidade aos ensinamentos após a saída. Todos os dias, a nossa permanência devia ser na área do centro de meditação. Deveríamos evitar ir até o templo, pois teríamos contato com as centenas de pessoas e isso tiraria nossa concentração.

Apenas em uma das noites fomos convidados a ir até o templo, e foi emocionante demais, por que era Buddha´s Day. Quando chegamos lá, havia muitos monges reunidos, e nós participamos dos rituais junto com eles. Recebemos flores e incensos que foram colocados em um mini altar, e depois recebemos uma folha para “tentar” acompanhar os cânticos que eles cantavam. Foi um dos momentos mais engraçados, e entre olhares fomos obrigadas a rir porque era impossível acompanhar qualquer frase da folha. Era muito, mas muito difícil. Tão difícil que no meio da cerimônia fomos autorizados a voltar para nossa rotina.

musicas-budistas-templo-ching-maiPodíamos utilizar a câmera fotográfica o mínimo possível para não desviar os pensamentos da meditação, então eu a utilizei em dois dias!

Mas o difícil mesmo foi ficar sem comunicação, sem internet. Porém….eu venci pessoal!!!

Após encerramento eu realizei a minha doação e tomei meu rumo para o mundo maluco novamente.

Escolho Viajar – Você mencionou que a questão da alimentação foi meio complicada. Você perdeu uns 4 quilos durante a experiência, foi isso mesmo?

Edy – Foi mesmo muito complicada. Eu não sou vegetariana, mas até aí tudo bem. Eu estava muito disposta e com muita vontade de ter esta experiência de não comer carne, mas eu confesso que achei que teria um café da manhã normal, com pães, com frutas, etc.

A realidade é que a única diferença entre o café da manhã e o almoço é que no café da manhã a comida era limitada, enquanto no almoço podíamos nos servir à vontade. Mas o tal “nos servir à vontade” não fazia a menor diferença porque a comida era tão ruim, que eu acredito que em apenas dois dias eu me servi um pouco mais.alimentacao-ching-mai

Era surreal! Além de acordar morta de fome porque a última refeição havia sido no dia anterior às 11 da manhã, quando eu chegava no refeitório para o café da manhã, dava de cara com um prato gigante de arroz com cozido de cebolão, ou uma sopa com coisas muito estranhas dentro, ou  um macarrão destemperado.

Depois das 12:01 nós só podíamos ingerir líquidos, café, água e chá. Apesar disso, a partir do quinto dia eu já não sentia mais fome e tão pouco achava a comida tão ruim assim. Era um sinal de que a tal meditação estava dando certo, e que eu estava percebendo o poder da minha mente em todos os sentidos.

Na semana seguinte, após voltar para a Irlanda, o meu organismo estava completamente acostumado com aquela rotina de alimentação e eu não sentia mínima fome depois do meio dia. Hoje já voltou ao normal, mas posso afirmar que como muito menos do que antes.

Mas é isso aí, quando nos predispomos a encarar um desafio destes, temos que estar abertos a tudo! O alimento deve servir para dar energia para o corpo e não para agradar o ego.  Foram 4,5kg a menos na balança!

Escolho Viajar – Com relação à questão da meditação, você já era praticante? Onde vai parar o pensamento de uma pessoa que fica 10 dias sem televisão, celular, internet e sem conversar com outras pessoas?

Edy – Não, eu nunca havia tentado meditar antes e confesso que é difícil demais, principalmente por conta da escolha da Vipassanna. Estamos falando de 10 horas por dia de meditação, aumentando gradativamente a duração de cada intervalo. ching-mai-meditacao

O corpo dói muito. Nos primeiros dias eu não conseguia sequer completar uma série de 15 minutos, nem a sentada e nem a caminhando. Por incrível que pareça eu sentia mais dores caminhando (eram intervalos de 15 minutos caminhado com movimentos muito, mas muito lentos… mais ou menos uns 50 metros em 15 minutos, ou seja, quase parando). E além das dores, o fato do monge pedir para você não dispersar o pensamento, ficar monitorando quando ele tenta voar para a família, para o passado, para o futuro, acaba te despertado muito mais pensamentos.

Olha eu pensei em tudo, absolutamente TUDO o que vocês podem imaginar. Pensei sobre meu passado e algumas situações mal resolvidas, com amigos e familiares, o que me abalou bastante nos primeiros dias e acabou interferindo muito na concentração, porque a gente acaba chorando e dispersando completamente da meditação.

Depois pensava sobre o meu futuro, sobre todas as viagens que eu tinha pela frente, sobre meu retorno ao Brasil, e principalmente, eu tentava a toda hora imaginar quem eram todas aquelas pessoas que estavam ali comigo todos os dias e com quem eu não podia me comunicar.

O dia mais difícil foi o dia do aniversario do meu irmão. Eu queria muito quebrar todas as regras e ligar para ele, mas sabia que não fazer isso iria lhe deixar orgulhoso de mim… foi muito difícil pois temos uma ligação de amor muito forte.

Ah e claro… tínhamos que concentrar nossa mente no corpo, na respiração, etc…. e claro … eu só conseguia concentrar a minha nas dores que sentia … rsrs

Mas assim como a alimentação, a partir do quinto dia a vida mudou, o tempo de exercícios já eram intervalos de 30 minutos cada, as dores já tinham passado e graças ao tal poder da nossa mente, os meus pensamentos já conseguiam estar mais equilibrados.

Escolho Viajar – Como chegar a este templo e como fazer um contato prévio para reservar uma vaga?

Edy – O contato pode ser feito através do site http://www.fivethousandyears.org ou do email: doisuthepinfo@gmail.com. É essencial o contato prévio. Em época de alta temporada pode ser necessário a reserva com alguns meses de antecedência.

Para chegar você pega o transporte coletivo no Centro de Chiang Mai, em um dos portões da cidade antiga. O transporte é uma camionete vermelha – um pau de arara. Você espera até chegar na lotação máxima, assim o custo é dividido e fica bem em conta. É importante se programar para sair de lá com umas duas horas de antecedência, pois a viagem leva quase uma hora até o pico da montanha. Depois você terá alguns degraus para subir e descer.

Escolho Viajar – Para quais pessoas você recomendaria essa experiência?

Edy – A todas as pessoas que acreditam que o amor e a compaixão sejam o norte de nossas vidas. Para pessoas com dificuldade de concentração. Para aquelas que não conseguem parar de pensar nunca ( eu). A todas as pessoas que buscam uma experiência de vida diferente, que são corajosas e desprendidas de excessos. A todas as pessoas que gostariam de aprender a viver com mais simplicidade.

Sinceramente, eu recomendo para todas as pessoas. Inclusive para aquelas cheias de frescura que não sabem o que é dormir em um colchão de madeira. Tenho certeza de que todas as pessoas que entrarem lá com o mente e o coração abertos sairão de lá pessoas melhores.

Eu apenas não recomendo para as pessoas que não tem esta predisposição de abrir o coração para viver este momento único. Se não tem disposição para fazer sacrifícios não vá!

Tenho certeza que sou uma pessoa ainda melhor depois desta experiência, é é muito especial poder dividir com todos vocês.


Todas as fotos utilizadas nesse post pertencem ao acervo pessoal da Edy.

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